Cultura

Exposição Mão de Baraka na Alfai em Loulé

O projeto expositivo Mão de Baraka, com curadoria de Susana Rodrigues, promovido pela Associação Alfaia em colaboração com outros espaços culturais do concelho de Loulé, propõe uma leitura contemporânea do misticismo mediterrânico através da trajetória de um símbolo-talismã que atravessa milénios, geografias e sistemas de crença. No território de Loulé — sucessivamente fenício, romano, islâmico e cristão — a espiritualidade não se organiza por rupturas absolutas, mas por camadas de permanência e transformação simbólica.

A presença da Hamsá nos Banhos Islâmicos de Loulé, espaço de purificação corporal e espiritual, reforça a sua dimensão ritual. Este símbolo possui, contudo, raízes mais antigas, remontando ao Mediterrâneo oriental e ao Próximo Oriente, onde a mão aberta funcionava já como amuleto protetor. Ao longo de diferentes contextos culturais, a Hamsá assume múltiplas designações e significados: no contexto islâmico, surge como Mão de Fátima; no judaísmo, como Mão de Miriam; noutras tradições, incluindo o hinduísmo e o budismo, relaciona-se com os cinco sentidos, os fluxos de energia do corpo e os princípios da vida.

É igualmente herdeira de uma longa linhagem simbólica que inclui figuras como Tanit, divindade fenício-púnica associada à fertilidade, proteção e regeneração. Esta persistência manifesta-se na noção de baraka, entendida como uma energia espiritual que atravessa objetos, corpos e territórios. A mão aberta torna-se, assim, um gesto de proteção, bênção e intercessão — não como objeto isolado, mas como expressão de uma ligação profunda entre corpo, comunidade e espaço.

A exposição reúne dez artistas: Ana André, Ana Rita de Arruda, Boris Eldagsen, Daniel Costa, Gustavo Jesus, João Motta Guedes, John Whitney Sr., Mumtazz, Teresa Ramos, Tom Haviv – de geografias, gerações e práticas distintas que, de diferentes formas, exploram relações entre símbolo, memória e espiritualidade.

O projeto inclui ainda uma excursão a Salir, no dia 21 de junho, orientada por Filipa Araújo, que parte do vestígio megalítico do menir do Polo Museológico de Salir, atravessando a memória andalusina e o imaginário popular da Moura Encantada.

Nos Banhos Islâmicos realizar-se-á, a 24 de julho, uma conversa sensorial idealizada pela mesma investigadora em torno dos aromas e essências do período andalusino, convocando o olfato como via de evocação da memória.