Ambiente

Kipt Colab contribui para relatório da ONU que revela que o turismo costeiro já gera 5,5 biliões de dólares por ano 

O KIPT CoLAB e a Universidade do Algarve integraram a equipa internacional de especialistas responsáveis  pela elaboração do World Ocean Assessment III (WOA III), a principal avaliação científica das Nações Unidas sobre o estado dos oceanos, apresentada esta semana. 

Os capítulos dedicados ao Turismo Costeiro e ao potencial dos Oceanos na dinamização turística, contou com a  participação da Professora Antónia CorreiaPresidente da Direção do KIPT CoLAB e docente da Universidade do Algarve, os investigadores concluem que este segmento representa atualmente mais de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, gera cerca de 174 milhões de empregos e é responsável por mais de metade da despesa turística global, estimada em aproximadamente 5,5 biliões de dólares anuais. 

O relatório indica ainda que o turismo costeiro e o turismo azul poderão tornar-se, até 2030, o maior segmento da Economia Azul, ultrapassando setores tradicionalmente associados ao oceano, como o petróleo e o gás offshore. 

Apesar da sua relevância económica, o estudo alerta para um desafio central: o crescimento do setor continua associado à degradação dos ecossistemas marinhos e costeiros que sustentam a própria atividade turística. 

Segundo os dados apresentados, a produção de energia associada ao turismo costeiro e oceânico gerou cerca de 1,57 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) em 2023. No caso específico da indústria dos cruzeiros, as emissões poderão atingir 80 milhões de toneladas de CO₂e até 2030. As projeções apontam para um crescimento anual do número de passageiros em torno de 6%, ritmo que poderá anular parte dos ganhos obtidos através da melhoria da eficiência carbónica. 

O relatório identifica ainda impactos significativos nos ecossistemas marinhos e costeiros, incluindo degradação de habitats, poluição, perturbação de espécies sensíveis e expansão de infraestruturas em territórios particularmente vulneráveis à erosão costeira, à subida do nível do mar e aos efeitos das alterações climáticas. 

Um dos principais alertas do World Ocean Assessment III prende-se com o facto de o valor económico do capital natural marinho continuar amplamente ausente das métricas financeiras convencionais. Esta realidade impede que muitos dos custos associados à degradação ambiental sejam considerados nos processos de investimento, planeamento e desenvolvimento turístico. 

A equipa científica apresenta exemplos concretos desta realidade. Em 2018, um episódio de proliferação de algas nocivas na Florida provocou perdas estimadas em 2,7 mil milhões de dólares para o setor turístico. Os investigadores consideram este caso um exemplo claro dos custos económicos associados à degradação dos ecossistemas marinhos. 

As conclusões do relatório mostram, contudo, que existem alternativas capazes de conciliar o crescimento económico com a conservação dos oceanos. Modelos de turismo natureza-positivo e iniciativas desenvolvidas em estreita articulação com as comunidades locais registam níveis superiores de valor económico por visitante e exercem menor pressão sobre os ecossistemas. Em alguns países do Sudeste Asiático, por exemplo, o turismo associado à observação de tubarões e raias já representa cerca de 7% das receitas nacionais de turismo marinho e apresenta um forte potencial de crescimento. 

O relatório destaca igualmente o papel de instrumentos como taxas turísticas, impostos ambientais e incentivos a experiências de menor volume e maior valor acrescentado. A evidência científica demonstra que estas medidas contribuem para financiar áreas protegidas, reforçar a conservação dos ecossistemas e reduzir as emissões, sem comprometer a atratividade dos destinos. 

As conclusões do World Ocean Assessment III mostram que a persistência dos atuais modelos de turismo de massa resulta menos de limitações técnicas do que de desafios de governação e da reduzida integração do capital natural nas decisões económicas. 

“A ciência demonstra que continuar a expandir o turismo costeiro segundo os modelos atuais significa comprometer os próprios fundamentos ecológicos e económicos do setor”, conclui a equipa científica responsável pelo capítulo dedicado ao Turismo Costeiro e Azul “A transição para modelos alinhados com o World Ocean Assessment não é apenas desejável, é uma condição para a viabilidade futura da economia do oceano.”

A participação do KIPT CoLAB e da Universidade do Algarve neste relatório internacional evidencia o contributo da investigação desenvolvida em Portugal para o debate global sobre sustentabilidade, Economia Azul e futuro do turismo costeiro.