Andalusíadas jovens 2022 – o Pilar Social Europeu e a participação política dos jovens em debate.

Nos dias 21 e 22 de Outubro cerca de 50 jovens, portugueses (Alentejo e Algarve) e espanhóis (Huelva) foram convidados para uma experiência  de cooperação transfronteiriça que, nas palavras dos próprios, se revelou “surpreendente” e um ponto de partida “muito importante para passarem a ver a União Europeia de uma forma mais positiva”. A iniciativa aconteceu entre La Rabida (na sede na UNIA – Universidade Internacional da Andaluzia) e Castro Marim (Biblioteca Municipal).

Cooperação transfronteiriça fortalecida num evento a pensar nos jovens

O ato institucional de abertura do Andalusíadas Jovens ficou marcado pelo sentimento de cooperação e pela alegria de colocar de pé um evento desta natureza. Disse, precisamente, María de la O Barroso, Directora de Secretariado de Redes Internacionales, que “ a Universidade Internacional da Andaluzia (UNIA) tem o prazer de ser a casa onde a Europa trabalha, reflete e cresce”. Por seu lado, José Antonio Marquez, da Acción Exterior da Junta de Andalucía, frisou que “a Eurorregião AAA e a Junta de Andaluzia trabalham para aproveitar toda as oportunidades de crescimento e desenvolvimento oferecidas pelo trabalho conjunto das três regiões: Alentejo, Algarve, Andaluzia.  Marycruz Arcos, Presidenta del CAME [Consejo Andaluz del Movimiento Europeo], frisou que “há necessidade de passar o bastão, para criar um grupo de pró-europeus. O projeto europeu não terá continuidade se não for cultivado desde a base, a juventude deve ter um papel ativo na Europa que queremos. O Presidente da Câmara Municipal de Sanlúcar de Guadiana José María Pérez Díaz testemnhou que “Sanlúcar trabalha lado a lado com Alcoutim, a cidade portuguesa ligada pelo rio Guadiana. Os centros de ambas as localidades estão ligados por barco e em breve serão ligados por uma ponte internacional. Sanlúcar e Alcoutim trabalham na prática o Projeto Europeu: as autarquias dos dois municípios trabalham para o bem-estar dos cidadãos de ambas as margens, complementam-se. Ainda há ressentimentos e rivalidades alimentados por razões históricas ou experiências anteriores que vão sendo deixadas para trás passo a passo na construção de novos referenciais de troca positiva”. José Manuel Borrero, delegado territorial de inclusión social,  juventude, famílias e igualdade contextualizou a  Eurorregião AAA e o Ano Europeu da Juventude”.

O Pilar Social e a participação política como motes para a discussão

Francisco Javier Calvo,catedrático na Universidade de Sevilha, perguntava aos jovens: «O que é para vocês ser europeu?». Afirmou que existe um crescente fosso geracional que faz com que a União Europeia seja encarada de forma muito diferente pelos mais jovens. O professor lembrou que hoje as possibilidades são tantas que é possível utilizar voos baratos para sair uma noite em Roma e regressar a Sevilha ou a Lisboa na manhã seguinte. Lembrou que os jovens de hoje dão como certa a Europa, sem que se apercebam de como essa realidade só existe porque estamos em plena União Europeia”…para as pessoas da sua geração esse era um sonho de liberdade.  Em 2015, Jean-Claude Juncker, ex-presidente da Comissão Europeia, incorporou o pilar social, para que a UE fosse algo mais do que o Estado de direito, “a solidariedade identifica-nos como europeus porque assim o escolhemos”, defendeu, lembrando que na EU “ninguém vai ficar sem acesso à saúde, ao estudo, ao progresso, à proteção social, porque na Europa ninguém é deixado para trás”.

A importância de divulgar o que a Europa faz por nós

Yolanda Macías Saúco, Macías partilha a sua experiência quotidiana de viver na fronteira sul do Guadiana. Com uma experiência focada, principalmente, no desenvolvimento local através da arte e da cultura, destaca o infinito leque de possibilidades que ainda existem por explorar e as múltiplas ferramentas que a UE nos oferece para as tornar realidade (assessoria, financiamento, programas de intercâmbio…). Filomena Sintra, vice-presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, lembrou “a importância da cooperação transfronteiriça e o que esta permitiu ao nível do desenvolvimento local”, referindo, desde logo, a criação da Eurocidade do Guadiana como um “projeto que teoricamente tem muito para contribuir para o desenvolvimento da ideia do que é ser eurocidadão”, testemunhando a própria que usufrui da proximidade com “o outro lado do rio e alguns serviços”. Margarita Domínguez Cordero, do Europe Direct Huelva frisou a importância da realização destas iniciativas, no contexto de um trabalho contínuo de aproximação à população, “cumprindo os objetivos de informar sobre a Europa e trabalhar para uma cooperação transfronteiriça que é constituída por muitas entidades e reforçada ao longo dos anos por iniciativas que juntam os cidadãos, onde os mais jovens estão sempre em destaque”.  Também Marycruz Arcos, Presidenta del CAME [Consejo Andaluz del Movimiento Europeo] e José Antonio Marquez, da Acción Exterior da Junta de Andalucía reforçaram a importancia de aprofundar a cidadania europeia, desde o espaço geográfico em que se configuram a Euro AAA e a Eurocidade do Guadiana. Susana Helena de Sousa aludiu à recente experiência vivida com a Conferência Sobre o Futuro da Europa (CoFE), realçando a sua importância, expressão e conclusões, nomeadamente os alertas deixados pelos cidadãos europeus em idade jovem: a referência aos «NEET» , ao  desemprego ou emprego precário . E pergunta: Onde está o espaço que damos aos jovens de causas? Falou de respeito e tolerância.

Multilinguismo e muito entusiasmo

Nos grupos de trabalho participaram jovens, empresários e políticos locais, de ambos os países, e o castelhano e o português foram as línguas de trabalho. Pontualmente recorreu-se ao «portunhol» ou ao «espanholês» ou até à língua inglesa. Os participantes debateram ao longo dos dois dias três questões:  que benefícios nos traz a União Europeia, o que falta ainda neste grande projeto, e qual a sua quota-parte de responsabilidade na participação política e na construção do modelo social europeu. A dinâmica dos grupos foi sempre entusiasmada. O momento do Pitch final, por parte dos porta-vozes de cada grupo, foi intenso e emotivo. Foi pedido a cada um que, num minuto, condensasse as principais conclusões do seu grupo – apelo à capacidade de síntese e de comunicação em público. O sentimento de satisfação por parte dos representantes era notório.

Feedback dos jovens muito positivo

No rescaldo do evento foram várias as mensagens enviadas pelos jovens à organização, demonstração da sua satisfação e afirmação da importância de eventos como as Andalusíadas Jovens 2022.Transcrevemos algumas das mensagens recebidas:

«.. era este tipo de contacto multicultural que precisava para confirmar aquilo que é o projeto europeu – a partilha de experiências e conhecimentos entre países membros!»

« a experiência foi uma surpresa, penso que seja a palavra certa para a descrever..»

«Foi uma experiência muitíssimo enriquecedora, permitiu-me ampliar os meus horizontes, aprofundar e adquirir novos conhecimentos cruciais. E, certamente vou envolver-me mais nestas ações.»

Mas se este era um evento para colocar os jovens «cara-a-cara» com os políticos e empresários em grupos de trabalho numa proximidade privilegiada, é de lamentar a pouca adesão dos políticos e empresários locais, a esta boa ideia. É necessário que no próximo ano, na ante-câmara das Eleições Europeias, a adesão dos «seniores» dê um sinal claro de que querem, efetivamente, ouvir e debater com os jovens. Nota positiva então para o entusiasmo e empenho dos jovens e para a boa saúde da cooperação transfronteiriça institucional. Nota menos positiva para a adesão dos políticos e empresários à iniciativa.

Conclusões do encontro transfronteiriço 2022

Questão 1: a)Tendo em conta o que conhece no seu ambiente, identifica o que a UE faz que te beneficia ou é interessante do teu ponto de vista.

Os jovens responderam que tem sido importante o estímulo ao intercâmbio juvenil através do programa Erasmus +, sendo este de resto muito importante ao nível do pilar social pelas oportunidades que proporciona a milhares de jovens. De destacar o trabalho em prol da igualdade salarial entre homens e mulheres, o desenvolvimento dos transportes e a eliminação das fronteiras. O Euro como moeda única e a sua livre circulação esteve também em destaque. Efetivamente, os jovens consideram que muitos são aqueles que não têm conhecimento sobre a EU e até frisaram a desinformação em torno deste projeto comum. Facilitaria um aumento do conhecimento sobre a EU haver mais apoio e informação no que diz respeito aos programas de mobilidade, haver uma desburocratização dos processos no seio da EU, nomeadamente para estimular as empesas. É necessário regular a política migratória de modo que seja harmonizada entre todos os Estados-membros. É necessário também mais investimento em investigação, nomeadamente mais tecnologia, trabalho mais sustentável e desenvolvimento das zonas desfavorecidas. Os jovens mostraram-se comprometidos com as temáticas da EU, nomeadamente, em participar mais, desde logo, localmente. Apelaram a que haja mais locais de discussão como o Andalusíadas Jovens, bem como maior conexão com os jovens. Os jovens mostraram-se sensíveis em colaborar mais na consciencialização dos outros jovens.

b) Acha que as pessoas em geral sabem o que a UE faz?

Unanimidade no reconhecimento de que há um desconhecimento generalizado sobre o que faz a União Europeia. Não se sabe o suficiente sobre o trabalho realizado. Mas se há ignorância também há muita desinformação, que se combate com melhor informação e debate.

Questão 2: Do que sentes falta? O que gostarias que a UE fizesse?

Hoje a Europa, apesar de ainda «longe», está mais próxima, e é preciso otimizar a relação entre os jovens e as instituições que a representam. Parte dessa aproximação também se deverá fazer através de uma atitude mais proativa dos jovens. No entanto, as estruturas locais, regionais e nacionais devem estar sensíveis aos jovens de modo a incluí-los nas dinâmicas criadas.  

Os jovens participantes listam: Mais programas de mobilidade como o ERASMUS mas com menos BUROCRACIA, mais apoio e conscientização. Existe falta de acompanhamento durante o processo. Deve promover-se mais os VALORES da UE: LIBERDADE, SOLIDARIEDADE, IGUALDADE, DEMOCRACIA,… Aumentar o número de programas de mobilidade que pensem nos jovens europeus mais carenciados..  trabalhar a PARTICIPAÇÃO (por exemplo, nas ELEIÇÕES EUROPEIAS). REGULAÇÃO SOCIAL harmonizada, especialmente na política de MIGRAÇÃO. Os procedimentos precisam ser simplificados, especialmente para o desenvolvimento de NEGÓCIOS. Investimento em INVESTIGAÇÃO: mais tecnologia, trabalho sustentável, desenvolvimento de áreas desfavorecidas.. É preciso incluir as MINORIAS na sociedade para se sentirem cidadãos de plenos direitos.

Mais COMUNICAÇÃO com os jovens. Mais espaço aos jovens para lutar por causas em que acreditam que podem fazer a diferença: ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS, SAÚDE MENTAL, HABITAÇÃO. Mais PARTICIPAÇÃO CÍVICA aos diversos níveis. Mais INFORMAÇÃO sobre o projeto europeu e seus benefícios. Mais UNIÃO na relação entre os 27 Estados-membros. Mais INTEGRAÇÃO de emigrantes. Mais COMPETÊNCIAS para a UE. Mais EDUCAÇÃO e consciencialização sobre EU. Maior sentimento de proximidade e pertença ao PROJETO EUROPEU. Mais aplicação dos objetivos da EU. Maior CONTROLO das empresas que beneficiam dos apoios comunitários.

Propõem em concreto:

  • Criar um programa que ajude a minimizar o EUROCETICISMO (através da informação nas escolas).
  • DESBUROCRATIZAR  
  • Fomentar a CULTURA
  • Criar uma tabela de avaliação das capacidades económicas dos cidadãos europeus (adaptar as políticas aos seus cidadãos).
  • Mais programas para promover o intercâmbio nos cursos técnico-profissionais do secundário.
  • Melhorar a política agrária e modernizar a agricultura.
  •  Harmonizar políticas de emprego, nomeadamente, que promovam o bem-estar.
  • Incluir os jovens em mais atividades, sem esquecer os menores de idade.
  • Melhorar o acesso à Universidade.

Questão 3 :

O que poderias fazer pelo projeto europeu do ponto de vista da participação política e do modelo social?

Na avaliação do que pode ser o #fazeranossaparte os nossos jovens destacam a PARTICIPAÇÃO. Participar na política. AGIR. Começar com as pequenas ações solidárias. Com maior envolvimento com as instituições, desde logo locais. Tornar-se embaixadores da UE para que haja uma maior sensibilização. Promover mais espaços de DEBATE. Promover os VALORES da UE na vida quotidiana – “Podemos ser um agente de mudança social através do boca-a-boca, principalmente através das redes sociais”.

Há mais necessidade de conexão com os jovens. Interessar-se mais pelo que a UE faz. Colaborar na consciencialização sobre a União Europeia. Lutar por ter mais voz e ganhar vontade de votar nas eleições europeias. Lutar por mais incentivos económicos a jovens políticos. Maior conhecimento das diferentes culturas da EU. Conhecer e refletir sobre os valores da EU. Participarem em mais intercâmbios. Lutar por melhorar os contratos dos trabalhadores estrangeiros. Lutar por um maior respeito pela diferença de opiniões e por aqueles que não são europeístas. Maior conexão entre os jovens europeus, começando, desde logo, pelos vizinhos. Atitude proactiva na pesquisa de informação importante ao nível da EU. Participar mais em projetos de mobilidade europeia. Participar mais em espaços de diálogos e atividades como este Andalusíadas jovens 2022.

Andalusíadas Jovens 2022

É uma iniciativa do CAME – Conselho Andaluz do Movimento Europeu, apoiada pela Eurorregião Alentejo-Algarve-Andaluzia (EuroAAA) através do projeto «Gabinete de Iniciativas Transfronteriças (GIT EuroAAA). O GIT é financiado pelo Interreg V-A Espanha- Portugal (POCTEP)  – Programa de Cooperação Transfronteiriça.

Nesta que é a primeira edição, ESPECIAL Ano Europeu da Juventude (https://youth.europa.eu/year-of-youth_es)  colaboraram para além do Governo Regional da Andaluzia e das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional do  Alentejo  e  Algarve, os Europe Direct  do  Alentejo Central e Litoral,  Algarve,  Huelva  e  Sevilha.