As “conservas” do novo século

Com a medicina a abrir portas à função terapêutica da cannabis, uma empresa familiar quis agarrar a nova fileira, desde o cultivo à produção de medicamentos. Enquanto nos campos se multiplicam as plantações certificadas, em Vila Real de Santo António, pavilhões onde há um século se imprimiam latas de conservas de peixe estão em vias de ganhar nova vida como um dos maiores laboratórios farmacêuticos da Europa

Estendida pelo interior dos pavilhões que foram casa de uma das principais litográficas do país, a estrutura modular mais parece uma estação espacial colada ao chão. A cobertura com largas mangas e torres de climatização a perder de vista contribui para essa visão de instalação que até poderia estar na órbita da Terra em lugar de serpentear, como ali, o pavimento das naves onde, durante décadas, se imprimiram cores, formas e palavras em milhões de latas de conservas de peixe.

O interior desse estranho equipamento revela-se ao abrir uma das portas selantes: longos corredores labirínticos hermeticamente isolados, salpicados por portas blindadas e por pequenos painéis cujas agulhas indicam se a temperatura e a humidade correspondem às expectativas do ambiente que se pretende controlado. É a “sensibilidade da matéria-prima e as melhores normas internacionais de produção” que o exigem, explica Elsa Pereira, enquanto percorre aquela que será, dentro de alguns meses, uma unidade de transformação de cannabis para fins medicinais.

A planta, de onde se extrai o haxixe, tem vindo gradualmente a ser adotada em vários países do mundo em medicamentos, preparações e substâncias para fins terapêuticos, nomeadamente para tratamento da dor em doentes oncológicos. Em Portugal, a venda destes produtos está regulada desde 2018.

Uma empresa familiar acompanha, desde o Algarve, os primeiros passos desse novo mercado internacional. “Numa primeira fase, vamos apenas transformar a planta em flor seca para fornecer a indústria farmacêutica, mas, dentro em breve, estaremos em condições para lançar a nossa própria marca e colocar o nosso próprio produto em farmácias”, conta a gerente da Cannprisma Pharma.

Os cerca de 1800 metros quadrados da unidade industrial, inseridos num complexo com mais do dobro do tamanho, fazem deste “um dos maiores laboratórios farmacêuticos a operar na Europa”. Aos salões que se vislumbram para lá das janelas de vidros duplos, há de chegar em breve a maquinaria para tratar das flores em cada estádio de transformação – processamento, extração, manufatura e embalamento, de acordo com as regras GMP (Good Manufactoring Practices) – antes de serem exportadas para os principais mercados da Europa, como a Alemanha, a França, a Irlanda ou a Suíça.

As expectativas da Cannprisma são altas, acreditando que, em poucos anos, possa atingir um volume de negócios anual superior a 20 milhões de euros. O investimento, esse, vai já em 16 milhões, estimando-se que venha a atingir entre 20 e 30 milhões de euros, dependendo da forma como o mercado vai evoluir. “Neste momento, o mercado da cannabis está a crescer no mundo inteiro. Todos os dias há um novo país a abrir portas à cannabis medicinal ou a liberalizar o consumo recreativo, pelo que ainda não sabemos exatamente como se vai desenvolver este negócio nos próximos 3 a 5 anos”, faz notar a empresária.

Jogar com a incerteza quanto ao futuro de um segmento de mercado não é novidade para Elsa Pereira. Semelhante risco já a empresa familiar tinha enfrentado em Alcobaça, quando deu os primeiros passos na então embrionária reciclagem de resíduos. Viria a vender o negócio a uma multinacional 25 anos depois. Foi o filho, João Nascimento, quem apontou à família o potencial da cannabis medicinal. “Quando começámos a aprofundar o projeto, chegámos à conclusão de que tínhamos de estar em toda a cadeia de valor”, recorda.

O projeto arrancou há 3 anos, em Castro Marim. O complexo de 10 hectares, com estufas e campo aberto de alta tecnologia (e também de alta segurança), foi inaugurado em setembro, mas está já pronto para entregar os primeiros 500 quilos de flor de cannabis medicinal que ali cresceram. Foram longos meses de seleção de plantas e testes de cultivo sob as normas internacionais GACP (Good Agricultural and Collection Practices) até chegar a este primeiro lote, mas foi tempo que serviu para confirmar que o clima do Algarve, “com mais horas de luz e temperaturas amenas”, confere ao projeto de cultivo o potencial de “4 a 5 ciclos produtivos por ano e com menores custos energéticos”, faz notar.

Da Quinta da Fornalha, esperam poder extrair 1,5 a 2 toneladas de flor na fase inicial, dobrando a produção numa segunda fase de ampliação das estufas. “Dependendo das variações de oferta e procura nos próximos 2 a 3 anos, podemos chegar às 17 toneladas anuais numa terceira fase de ampliação”, aponta.

Além da Cannprisma, há outras 3 empresas autorizadas a cultivar cannabis medicinal no Algarve, num universo de 16 em todo o país, com tendência a aumentar exponencialmente. Outros 92 pedidos de licenciamento de produção estão a aguardar certificação do Infarmed. O mercado está “em crescimento muito rápido”, nota Elsa Pereira, para quem “estar desde o cultivo até ao medicamento” garante a “flexibilidade” para se ajustar ao futuro.

De volta ao laboratório de Vila Real de Santo António, a ideia é que as flores das próximas colheitas possam já vir a ser ali processadas. A unidade conta com um departamento de investigação e um laboratório de testes que, a par da produção de fármacos, vão estar a trabalhar para colocarem a Cannprisma um passo à frente da evolução da fileira, “no desenvolvimento de plantas únicas e na criação de novos produtos que façam diferença no mercado”. Para já, conta, os planos passam por tratar e embalar flor de cannabis seca, mas, a médio prazo, vir a obter óleos e extratos da planta para a indústria farmacêutica.

Nesta fase, a empresa conta já com 40 trabalhadores, a maioria qualificados, mas os planos vão obrigar a engrossar fileiras nos domínios da engenharia farmacêutica e da biotecnologia.

Fonte: CCDR Algarve

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